Posted by: Xesko | March 23, 2015

Cor de Burro Quando Foge


(A cor que não se encontra nos pantones nem nas escalas cromáticas)

A cor não é nada mais, nada menos do que a captação da luz no nosso olho por três tipos de cones (pequenas células presentes no fundo do olho), cada um receptivo a três comprimentos de ondas de luz mais precisamente os cones “L”, sensíveis ao Vermelho (580nm); os “M”, sensíveis ao Verde (545nm); os S, sensíveis ao Azul (440nm)[1].

No entanto o termo “cor” é usado amiudamente em outros contextos tais como o esotérico o figurativo e em expressões idiomáticas.

De forma figurativa, temos por exemplo “ficar sem cor” que exprime a palidez súbita de alguém seja por susto, doença ou emoção, “mudar de cor” que indica palidez ou ruborização da pele.

Em expressões idiomáticas pode-se citar, “dar cor à vida” que significa mudar de atitude de uma mentalidade passiva para uma mais intensa e alegre, ou “não ver a cor do dinheiro” que se utiliza quando se foi enganado no sistema financeiro (algo tão em voga nos nossos dias) ou apenas o não ter recursos financeiros, ou então a expressão que dá o nome a este texto “cor de burro quando foge”.

De facto, muitas vezes ouvimos as pessoas usarem a expressão “cor de burro quando foge”, mas que cor é esta e será que é mesmo uma cor?

As cores podem ser obtidas através de duas formas. Através da síntese aditiva, que se aplica à luz e é a forma como funcionam os nossos olhos, ou seja, juntando três cores para obter uma nova cor. Ou através da síntese subtractiva, que se aplica aos pigmentos, e funciona de forma inversa, ou seja enquanto na síntese aditiva vamos juntando cores (intensidade luminosa) até obter o branco, na síntese subtractiva vamos subtraindo cores ao branco (diminuindo a intensidade luminosa) para obter as cores.

A questão é esta: Será que poderemos obter a “cor de burro quando foge” de alguma destas formas e exclui-la de “expressão idiomática”?

Na cultura ocidental, as cores estão relacionadas com as emoções do ser humano, logo uma cor que determina uma emoção, deve forçosamente ter de existir.

Emocionalmente a “cor de burro quando foge” transmite vários sentimentos tais como o de transformação (a cor alterou-se), sinceridade (não saber qual é a cor original), dignidade (não ser apanhado em falta), respeito (não querer enganar quem nos inquire) e purificação (sentimo-nos libertos com a resposta). É por outras palavras, uma cor misteriosa que expressa uma sensação de individualidade e de personalidade que nos deixa calmos e tranquilos após a sua utilização. É uma cor que equilibra a mente e ajuda-nos a transformar as obsessões e os medos, pois após alguém nos perguntar “que cor é essa” e nós respondermos “cor de burro quando foge” sentimo-nos relaxados, soltos e com um sentimento de dever cumprido.

Na realidade, popularmente “cor de burro quando foge” alude ao fato de não se conseguir distinguir a cor de um animal que fugiu, ou por outras palavras, uma cor de que não nos conseguimos lembrar exactamente qual era.

Segundo vários dicionários de expressões idiomáticas, chegamos à conclusão que a referida cor se situa entre o verde, o amarelo e o castanho, sendo a mesma uma cor indefinida e feia.

Há quem afirme que o termo tem um significado quase literal, levando em consideração que a cor parda do burro, após correr descabreado por uma estrada de terra afora, fica indefinida devido à lama e pó acumulado. Mesmo sendo uma explicação plausível, ela nunca foi comprovada.

Alguns “eruditos” afirmam que não é uma cor, pois a expressão é uma corruptela de um ditado antigo que seria “corro do burro quando foge”, já que um burro não muda de cor quando foge, quando trabalha ou escoiceia, mas que apesar de ser um animal pacato, quando alguém o provoca ele assusta-se, enfurecesse e fica feroz, levando tudo pela frente. Portanto a expressão nada teria a ver com a tradicional cor bege pálida do animal, mas sim com o seu temperamento. Esta ideia advém do facto de a expressão “corro do burro quando foge” ter sido registrada pelo linguista Antônio de Castro Lopes (1827 – 1901) na sua obra “Diccionario classico latino e portuguez” publicado em 1883, levando a concluir que o uso equivocado da expressão original acabou por dar origem a “cor de burro quando foge”. No entanto esta ideia cai por terra, já que encontramos a expressão “cor de burro quando foge” numa obra mais antiga, mais precisamente em 1844, no livro “A Moreninha” de Joaquim Manuel de Macedo[2].

Mas então quem tem razão e qual é a verdadeira “cor de burro quando foge”? Para chegarmos a uma conclusão lógica, vamos analisar a expressão de outra forma.

Várias animais mudam de cor, ou por se sentirem ameaçadas, ou apenas por necessidade de se misturarem no meio ambiente, temos como exemplos disso o camaleão e o polvo, no entanto não é esse o caso do burro, pelo que a expressão deve vir de outro lado.

Os nossos vizinhos brasileiros usam uma expressão sui generis, ao constatarem que por qualquer razão o seu burro (utilizado na lavoura, ou pura e simplesmente como transporte) fugiu, dizem: “meu burro azulou”, logo constatamos que, para os brasileiros, a cor do burro quando foge é azul.

Se procurarmos a origem da expressão na antiguidade, verificamos que “burrus” em latim significa “ruço” ou “avermelhado” e que, curiosamente, ruço é um termo comummente utilizado para se referir os equídeos, inclusivamente os burros. Já Vasco Botelho do Amaral sugere que a ocorrência da palavra burro na expressão “cor de burro quando foge” pode remeter efectivamente para uma cor (Amaral, 1958). Portanto se admitirmos esta origem da palavra será fácil explicar a expressão como variação posterior à perda do conhecimento de que “burro”, originalmente, designava efectivamente uma cor, passando “cor de burro” a ser a expressão jocosa “cor de burro quando foge”.

Portanto se juntarmos as duas opções concluímos que a “cor de burro quando foge” se situa entre o azul e o avermelhado, e se formos à nossa análise inicial, verificamos que existe uma cor situada entre esta gama cuja conexão metafisica se enquadra na descrição e que de facto encontramos nos pantones e nas escalas cromáticas.

Espiritualmente é uma cor ligada à intuição, logo, é uma cor metafísica que se encontra associada à alquimia e à magia e é vista como a cor da energia cósmica e da inspiração espiritual. Essa cor simboliza a transformação, dignidade, respeito, purificação, devoção, piedade e sinceridade, ajudando-nos também a combater as nossas obsessões e medos. Essa cor é terciária, e é obtida através do violeta (cor secundária) à qual juntamos o vermelho. A sua designação Pantone é 19-3215 TCX (CMYK) e em luminescência (RGB / Computador) é 503E5C.

O seu nome é Índigo.

Indigo Pantone   Indigo por do sol

Bibliografia

Amaral, V. B. d., 1958. Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português. s.l.:s.n.

[1] nm – Nanómetro

[2] “mas por minha vida que a carraspana de hoje ainda me concede apreciar devidamente aqui o meu amigo Fabrício, que talvez acaba de chegar de alguma visita diplomática, vestido com esmero e alinho, porém tendo a cabeça encapuçada com a vermelha e velha carapuça do Leopoldo; este, ali escondido dentro de seu robe de chambre cor de burro quando foge, e sentado em uma cadeira tão desconjuntada que, para não cair com ela, põe em ação todas as leis de equilíbrio, que estudou em Pouillet”

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